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Parque da
Pena
O Vale dos Lagos do
Parque da Pena
"Uma agradável cidade está sobre
um grande lago,
Fortaleza inexpugnável que o mar
rodeia."
Jean Markale
"Os Celtas e a Civilização
Celta" (1969)
O Vale dos Lagos do Parque
situa-se no topo norte da área central da Pena, entre a
encosta do Palácio (a nascente) e a encosta que dá acesso à
zona da Abegoaria, Feteira da Condessa e Chalet (a poente). Encontra-se ainda delimitado a norte pelo
muro da propriedade - neste estando abertos dois portões
muito próximos - e a sul pelo Jardim da Feteira da Rainha,
onde se encontra um outro lago, alimentado pelas mesmas
águas (o Lago dos Fetos).

Mapa do Parque da Pena (1960). O Vale dos Lagos encontra-se
colorido a azul.
Trata-se de uma das zonas de
cota mais baixa da Pena (rondando os 375 metros, no seu
ponto mais baixo, à entrada), mas não é o lugar de menor altitude da
actual zona aberta ao público, no Parque (Feteira da
Condessa, com cota ainda menor).
A sua situação face ao alto
monte sobre o qual se ergue actualmente o Palácio (antes
dele o Mosteiro e antes ainda a ermida de Nossa Senhora da
Pena), dá ao
visitante uma percepção ainda mais clara da imponência da
Pena lá em cima, por oposição à grande profundidade dos
Lagos cá em baixo. O
desnível é pequeno (cerca 128 metros), mas a verticalidade
da encosta empresta à paisagem uma sensação de "abismo",
reforçada pelo elemento aquático dominante.
A observação da torre do Lago de Vale
Martinho, belíssima em baixo, e a sua comparação com as
altas e coloridas torres da Pena, maravilhosas lá em cima,
recordam-nos o princípio da famosa Tábua de Esmeralda, de
Hermes Trimegisto (o três vezes grande): "O que está em
baixo é como o que está em cima e o que está em cima é como
o que está em baixo".
A localização dos Lagos (e das
suas águas, como elemento dominante naquele Vale e naquela
zona do Parque) precisamente à entrada (ou numa das
entradas) da Pena, reforça a diferença objectiva, física e
verificável entre a zona extra-muros e a zona intra-muros.
Existe, de facto, um corte entre duas realidades: aquela que
vivenciamos fora da Pena, e um outra que - por meio de
símbolos - somos convidados a viver dentro da Pena. No
Parque (como fora dele, aliás) "todas as coisas são sinais
(...)" que "se abrirão àquele que possuir o dom da sua
linguagem de amor" (Dalila Pereira da Costa).
Ao ultrapassar o portão - que se
constitui como uma verdadeira e real fronteira entre o mundo
de fora e o pequeno Reino de dentro, criado por D.Fernando
II -, o visitante depara-se com as águas, que são "lugar de
nascimento, das transformações ou renascimento", de acordo
com o Dicionário dos Símbolos. Águas que, além do mais, se
movem e que dessa forma simbolizam o "estado transitório"
(Lima de Freitas), aqui do visitante ou peregrino, que ao
entrar no Parque inicia sempre uma demanda, mesmo que dela
não tenha consciência (o que naturalmente tem influência na
compreensão e utilização operacional dos símbolos que a Pena
guarda).
Ou usando as palavras
esclarecidas e claras de Dalila Pereira da Costa (no seu "A
Nau e o Graal"): "Porque o Outro Mundo, será sempre
coexistente a este, mas dele separado, e unido, por uma
barreira, a água, que urge atravessar, num acto que é morte
e ressurreição. (...) É a água, como limite e passagem entre
um e outro mundo, que sempre surge na simbologia da
espiritualidade lusíada".
Pessoa escreveu "Quem quer
passar além do Bojador / Tem que passar além da dor", e neste
Vale o Bojador e as suas águas revoltas são os sete lagos
que sucessiva mas lentamente ultrapassamos, embrenhando-nos
na floresta, em busca de caminhos para um centro que é
afinal o nosso.
A configuração do Vale, a sua
beleza, as suas cores e cheiros serenam o visitante, que
avança embalado pelo canto das águas, pela serenidade dos
recantos talhados ou naturais, pelas vozes do ventos e das
aves que habitam os Lagos da Pena.
"Longe
das ondas turvas da maldade", o visitante inicia o seu
percurso - potencialmente - iniciático, lutando contra um
desconforto entre a realidade do lado de fora, e a Realidade
do lado de dentro, e lentamente compreende - com o coração e
nunca com a "mente" (que tantas vezes mente de facto...) -
que a Torre do Lago Maior é muito mais do que um enfeite ou
pateira, que os elegantes cisnes da Pena cumprem uma
função maior do que o simples embelezamento do espaço, e que
a subida física do Lago corresponde - ou pode corresponder,
dependendo da entrega do visitante ao espaço - a uma
elevação do seu estado de consciência. Como uma progressiva
espiritualização da matéria.
Disso fala aliás Francisco
Bettencourt, no seu texto "Simbólica do Espaço nos romances
de Cavalaria", incluído no volume "Simbólica do Espaço:
Cidade, Ilhas e Jardim", coordenado por Lima de Freitas e
Yvete Centeno: "a angústia perante a
imensidade do mar ou a densidade da floresta pode dar lugar
à serenidade induzida pela paisagem doce dos vales, prados e
clareiras. Os lugares baixos proporcionam uma
espiritualidade tranquila que complementa a espiritualidade
ascética da montanha". Este sentimento, dizemos nós, é
ampliado quando estes lugares baixos se encontram dentro da
própria montanha, no percurso para os seus cumes, como
lugares de passagem ou de aproximação ao centro. É o caso do
Vale dos Lagos da Pena.
O Vale dos Lago, cujo
enquadramento se encontra resumidamente feito no primeiro
parágrafo deste pequeno texto, compõe-se de seis lagos
sucessivos, de diferentes tamanhos, e que se ordenam de
norte para sul, ou sudoeste. Se dividirmos o Lago Maior (ou
de Vale Martinho) em dois, atendendo à divisão física que se
encontra feita com recurso a um pequeno dique ameado com
pedras, então os lagos são em número de sete.
O primeiro lago encontra-se
localizado à esquerda do Portão dos Lagos, junto ao muro e
abaixo da antiga casa do guarda, hoje em ruína. Trata-se de um pequeno lago,
meio escondido face ao Lago Maior, que domina completamente
a atenção dos visitantes no momento da entrada no Parque.
Segue-se o Lago Maior, uma das
mais fotografadas imagens da Pena de Sintra. Medindo
40 metro de largura (no ponto mais largo) e 150 metros de
comprimento, este Lago parece ser na realidade muito
maior, assumindo um aspecto de Mar, contendo ao centro uma
Ilha sob a forma de torre acastelada, incorrectamente
designada como "pateira". Verifica-se pois a existência,
logo à entrada do Parque, de uma composição simbólica de
muitíssimo denso significado hermético, que não teremos
nunca a presunção de pretender decifrar.
Refira-se ainda assim que a Ilha
- lugar isolado e inacessível - e o Castelo - fortaleza que
protege aqueles e aquilo que se encontram no seu interior -
são os dois lugares por excelência de demanda dos
Cavaleiros, na mitologia associada ao Santo Graal. A
fortaleza aparece no Lago sob a forma de torre, "baluarte do
Luz do ser no Mundo" (Jorge de Matos). Em "Jogos Reais em
vinte pinturas", Jorge de Matos define as fortalezas, a
propósito da Torre do tabuleiro de Xadrez, como
"missionários intermédios e entidades pontificais, veículos
seguros de acesso aos níveis superiores da Consciência". E a
Torre Acastelada e Isolada da Pena de Sintra tem
precisamente esse significado, abaixo daquela que ao alto é
a sua imagem celeste (o palácio), no ponto de mediação entre
dois espaços de natureza diferente (os já referidos extra e
intra-muros).
A presença da água à entrada do
Parque também cumpre uma função simbólica de lavagem (ou
purificação) da alma.
O Lago Maior é envolvido por
caminhos, nomeadamente duas estradas principais que sobem o
Vale. Quem optar por contornar o lago pelo seu lado
ocidental (à direita de quem atravessa o portão), encontrará
junto ao portão que hoje se encontra fechado uma pequena
plataforma que dá acesso às águas do lago, composta por
pequeno lanço de degraus e varanda murada na qual se
encontra aberta uma porta de ferro. Aqui aportavam as
pequenas embarcações que circulavam sobre as águas e em
torno da Torre Acastelada. Hoje já não existem barcos nos
Lagos da Pena.

Fotografia de António Passaporte (anos 50)
Pela estrada do lado esquerdo,
outro balcão sobre o Lago se abre a escassas dezenas de
metros do Portão. Trata-se de um lugar de beleza ímpar, e
que permite uma observação privilegiado da Torre e do
belíssimo arvoredo que envolve o Vale.
O Lago Maior é composto de duas
parcelas, divididas - como já referimos - por um pequeno
dique ameado, para lá do qual existe uma zona pouco
profunda, servida por uma pequena cascata que desce do lago
seguinte.
Este terceiro lago do Vale
(quarto, se contarmos separadamente as duas zona do Maior)
será sensivelmente do mesmo tamanho que aquele que se
encontra à esquerda do portão. Trata-se de um lago de grande
beleza, servido por cascata que desce daquele que se
encontra imediatamente a seguir, e junto ao qual existe uma
torre octogonal e ameada, rodeada por uma base também ela
octogonal com oito portas, que dão acesso a sete pequenas
divisões e para a divisão principal do edifício, exactamente
abaixo da torre.
Junto a este lago encontra-se
uma pequena câmara ao ar livre, redonda e servida por
bancada de pedra, sobre a qual se levantam colossais pedras
graníticas esverdeadas. Trata-se de um lugar de repouso
(como uma enseada de águas calmas, nesta travessia pelo
mundo aquático da Pena de Sintra), de preparação para a
entrada no labirinto florestal,
que se aproxima.
A algumas dezenas de metros, uma
lápide onde sobressai em baixo relevo o rosto sereno de
D.Fernando II, evoca o trabalho do Rei-Artista. Trata-se de
um lugar que merece abordagem mais detalhada, e sobre o qual
nos deteremos no futuro.
Segue-se um bonito quinto lago,
o último coberto por densas copas de árvores, para logo a
seguir aparecer o chamado Lago do Pesqueiro, onde ainda hoje
nadam lentamente pesadas Carpas, espécie proveniente do
Leste Europeu e da Ásia Ocidental, que segundo a tradição
eram ali pescadas por D.Carlos I, durante as suas temporadas
no Palácio.
Por fim, um lago de formato
atípico - quando comparado com os restantes - já que forma
um V. Este lago encontra-se numa cota de 390 metros.
Os lagos do vale são servidos
por vários cursos de água, provenientes de encanamentos e de
cursos de água que brotam da terra em minas e saibreiras
espalhadas por várias zonas do Parque: encosta da Cruz Alta,
zona do Gruta do Monge e Sete Pinheiros, e Encosta do
Palácio.
Acrescente-se, sobre os Lagos da
Pena, que um desenho de D.Fernando II referido por Azevedo
Gomes na sua Monografia, sugere - de acordo com o referido
autor e protector do Parque - que o Rei-Artista recordou em
pormenores do Vale "certo trecho do belo e afamado Lago
Como" (Lago di Como), localizado em Itália. Misteriosa
referência, que apenas o referido trabalho de D.Fernando
poderia esclarecer.
E aqui termina esta primeira
abordagem ao Vale dos Lagos da Pena, não sem antes referir
que este conta tantos Lagos quantas são as estrelas da
Constelação do Cisne (Cygnus), também conhecido por
"Cruzeiro do Norte", e que na tradição árabe é conhecida
pela constelação do Galo.
Os Cisnes, aves aquáticas
relacionadas por excelência com toda a mitologia da demanda
do Graal (ou não fosse Lohengrin - o filho de Perceval - o
chamado "Cavaleiro do Cisne"), são os guardiães verdadeiros
do Vale dos Lagos da Pena, sua imagem totémica e dignos
representantes da potência e consciência celeste do Cruzeiro
do Norte naquela zona do Parque.
Diz-se que durante muito tempo
existiram no Lago Maior casais de Cisnes - um branco e outro
negro -, reforçando-se assim a dimensão arquetípica da
presença destas aves nos Lagos da Pena. Engana-se quem
pensar que os Cisnes da Pena habitam o Vale apenas por
razões estéticas ou de embelezamento. E quem não acreditar
deve abrir o seu coração à sua linguagem corporal, lendo na
elegância das suas formas a função que dia após dia cumprem
numa das mais frequentadas zonas do Parque.
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Lohengrin e o
Cisne, no Palácio de Neuschwanstein (Baviera)


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